Ao deitar-se de mais um dia simples, você repensa sua vida naquele pequeno instante antes de finalmente adormecer. Repensa seus planos, metas, objetivos, tudo aquilo que deseja, mas sobretudo, o supremo contrário que permanece absoluto na fundamentação do seu querer também contrário. Se queres algo, também não queres sua negação, e a não confirmação disto é talvez vosso maior medo. Suponhamos agora, que no decorrer da noite, surge um novo você, um outro exatamente igual a ti. Mesma vida, mesmas caracteristicas, mesma personalidade, mesma experiencia, mesmos objetivos, mesmos medos e desejos. Suponhamos que este outro-você, ultrapasse a barreira do teórico, torna-se vivo, físico, ativo. Digamos que este outro-você, passe a seguir seus passos, fazer o que voce faz, dizer o que voce diz, ir aonde voce for. Não será este, o seu maior pesadelo? Não amanhecerias no pleno desgosto de ti mesmo, se descobrisse que este outro-você roubasse nao só sua vida, mas também suas conquistas? Não cairias na desgraça se descobrisse que és um fracasso de sí mesmo? Um atraso de seu próprio tempo? Ou em outras palavras, o assassino de si mesmo?
Não tens medo de que alguem exatamente como você o superasse e conquistasse tudo aquilo que voce tanto quer?
Não é nosso contrario que tememos, mas o nosso igual, alguem como nós, algo que alcance nossa plenitude antes mesmo de nós. Não é com total certeza de interesse que repensa seus objetivos? Se queres algo, sabes que honrará até mesmo este querer. E se alguem tão honrado como você, o tivesse antes mesmo de ti? Se o outro-você atingisse tudo antes de ti? Não irá sentir-se um eterno vazio? Alguem que perdeu justamente para o melhor dos inimigos?
Todo movimento social de reprodução permeia-se num vazio de essência. Um palco onde todos são personagens, mas ninguem é ator, onde toda peça destina-se à um publico que, por ser também personagem, não existe. Obra infundada de uma apresentação que nunca acaba. Qual a força disto tudo? É justamente por nao haver publico, que a própria obra ve-se como um. E torna-se entao, presa à sua própria atuação: Preciza apresentar-se, pois sem a sí mesmo não há publico. E precisa de si mesmo como publico, pois senão não teria como se apresentar. Não torna-se todo este movimento, descartável? E não é esta justamente, a melhor maneira de preservar os até entao atores que não existem?
Há um pequeno contato com a realidade, um contato que de tão penoso, exige da obra em permanecer eterna, um apresentar-se inacabado. Não fica facil assim, confundir a arte da realidade?
A pena da individualidade que nao pode ser superada não lhes dá melhores caminhos: Deve-se, para superar a dor do supremo isolamento, jogar-se à peça, ao teatro social de reprodução vazia: siga para onde os outros vão, mesmo que estes sigam meu caminho, ou como nos é mais conhecido: Faça o que os outros façam, mesmo que estes tentem fazer o que você ja faz! Um movimento ciclico, desnecessário, mas enganador. Engana a individualidade, engana o próprio ser. Enganar para que?
Nossa própria individualidade é tanto deus quanto o diabo. Representa tudo o que nos é de bom, e de ruim. A realidade que nao pode ser extendida, mas que ao mesmo tempo nos é subordinada. Se por um lado, nos sentimos presos à nossa própria realidade, ao fenomeno que nos é dependente, em outro, somos os reis de nossa limitação, e possuimos ao menos um bem supremo, nossa própria existencia individual. Dois fatos entao seguem: O individuo que nega-se para jogar-se ao outro coletivo (que nao existe em essencia), e o individuo que como outro, luta para conquistar o que proclama sua individualidade.
Se vosso eterno pesadelo, o do outro-você, se realizasse, não teria ambos os principios sido destruidos completamente? O eu que tornou-se vazio, o outro que tornou-se eu. Uma inversão dos polos, do eterno movimento do individuo cognoscente e desejante. O querer que engana o conhecer, o conhecer que engana o querer.
Talvez acordarias deste pesadelo pensando: Não foste este o melhor dos sonhos?